Então a dor e o sofrimento se ergueram, como prédios de concretos enormes, e tamparam-me a única luz que fazia o dia valer a pena. O Sol não brilhava mais na minha pequena cidade de emoções e a Lua não iluminava mais os meus caminhos, foi então que me senti perdido. A grande selva de pedra bloqueou a visão da grande selva verde, que floreava meu dia e perfumava o ar que respirava.
A dor também se locomovia muito rápido de um lugar para outro, do coração para o cérebro, do cérebro para as pernas, das pernas para as mãos. Esse tipo de locomoção era rápido, pois era feito utilizando um automóvel. A utilização desse veículo de locomoção poluiu meu pulmão e mais uma vez eu sofria com a dor.
A pior parte da dor é que ela dói.
Eu me vi perdido numa cidade grande, sem um mapa para me achar, sem alguém para me dar a mão. Tornei-me um sem-teto.
Comecei a caçar latinhas e dormir nas ruas. O frio da noite e da manhã me mantinham acordado o tempo todo, meus olhos nunca fechavam e eu estava cansando. As pessoas me ignoravam e eu me tornei invisível. Não acreditava no que estava acontecendo, eu já fui dono de tudo aquilo e hoje estou aqui, caído no chão à espera de alguém de boa fé para me ajudar.
Os dias se passaram e num dia em que, finalmente, consegui fechar os olhos e dormir, algo me acordou. Nunca senti tanto ódio na vida, mas mudei de opinião. Ao meu lado, se aconchegando sem ser convidado, um cão vira-lata. Ele pedia por carinho e eu não pude negar. Coloquei-o dentro de minhas cobertas (feitas de jornal) e abracei o coitado até que nós dois estivéssemos dormindo.
Peguei afeto pelo bicho e dei carinho, atenção e comida. Ele me seguia pra onde quer que eu fosse, mas um dia ele fugiu de mim. O meu desespero e o medo da solidão me perseguiam, eu estava gritando por dentro e com medo, muito medo. O latido dele me trouxe de volta à lucidez e lá estava ele, pedindo para segui-lo. O cão me levou à um prédio abandonado e seguimos até o último andar. Lá do alto pude ver toda a minha antiga selva, que agora era uma grande cidade de pedra, e olhei para o alto. Nunca me senti tão perto das estrelas, tão perto da felicidade. Olhei para o lado e lá estava meu cão, nunca me senti tão perto de alguém, tão perto do próprio amor. Mesmo não tendo nada, pela primeira vez na vida, eu tinha tudo.
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