Tenho uma doença autoimune. Uma doença autoimune é uma doença que faz com que meu corpo lute contra ele mesmo. Os soldados que deveriam me proteger, acham que sou uma ameaça e me atacam. Isso é engraçado dentro do contexto apresentado. Veja bem, eu não sou uma pessoa que escolhe as coisas facilmente e vivo em confronto comigo mesmo. Eu sou autoimune.
Tenho uma tendencia enorme a me sabotar quando sei que estou perto de ser feliz plenamente. Eu deveria me defender com todas as forças da infelicidade, ma seu vejo a felicidade e penso que ela é uma inimiga, então a ataco. Uma vez, em um texto, eu disse que havia criado uma teoria em que eu não nasci para ser feliz, essa teoria continua uma teoria, mas ela se encaixa no quebra cabeça de hoje.
No período da tarde conversava com meus amigos sobre meu probleminha de saúde, a Artrite Reumatoide Idiopática, ou como gosto de chama-la, Artie. Enfim, estávamos conversando sobre Artie e me fizeram perguntas sobre dor, onde dói e etc e tal. Ao chegar em casa meu dedo estava inchado, ou seja, de um tamanho normal já que meus dedos são extremamente finos. E então eu notei que havia respondido errado, não me dói o dedo, mas a alma. Minha mãe diz que existem pessoas com a mesma doença que eu, mas em estado pior, sei que vai parecer meio egoísta, mas eu não ligo. Eu me importo com o que eu estou sentindo e nesse momento é raiva. Tenho raiva de ter sido escolhido para portar essa doença e tenho raiva de nunca ter desabafado com ninguém o quanto ela me fere por dentro. A dor que ela causa aos meus dedos não são nada comparadas à dor que sinto em meu coração ao pensar no meu futuro. Não digo que se um dia eu parar em uma cadeira de rodas que minha vida simplesmente vai acabar, mas digo que vai doer. Eu corro o tempo todo e me sinto bem quando faço isso, livre.
Descobri a Artie quando tinha meus quatorze anos de idade e desde então minha vida sofreu pequenas alterações, como não conseguir abrir uma garrafa de refrigerante ou colocar as calças para ir à escola. Aos quinze anos, eu me trancava no banheiro e chorava todas as noites, mas não choro mais. Aliás, notei que sou quem sou hoje, devido minha condição. A Artie me fez aprender a criar piadas, me fez encarar a vida de uma forma tão bela que eu quase agradeci por ter a doença. Será então que minha raiva é pelo fato de eu ser, em partes, grato à essa doença?
Artie também é uma doença degenerativa, o que significa que vou me degenerando conforme o tempo passa, ou seja, vou ficando deformado. Acho que sou um ser degenerativo, pois tenho outra doença degenerativa que se chama amor. O amor de destrói e me corrói. Juro que tentei não transformar isso em um texto de amor, mas a vida não é basicamente isso? Amor? Pois bem, o amor me degenera, cada vez que amo, meu coração se quebra um pouco. Não é que eu queria que ele se destrua, mas é só o meu corpo lutando contra ele mesmo, me transformando em um ser novo, me degenerando de forma nada peculiar. Uma menina linda me disse hoje que sentia algo por mim e eu sentia, ou ainda sinto, algo por ela. Meu medo me impediu de falar com ela e a dedução incorreta dela a fez encontrar um novo amante. Mais uma prova da autoimunidade de minha vida, eu me boicotei. Sabia que ela sentia algo por mim, mas preferi ficar quieto. O meu silêncio é minha maior falha. O meu silêncio grita meus maiores medos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário